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O prêmio da previsibilidade: por que mercados estáveis rendem mais no longo prazo

  • Foto do escritor: Ronaldo Silva
    Ronaldo Silva
  • 6 de jan.
  • 3 min de leitura
O prêmio da previsibilidade: por que mercados estáveis rendem mais no longo prazo

Existe uma narrativa recorrente no mercado imobiliário que associa oportunidade a movimento, volatilidade e ciclos “quentes”. Regiões que sobem rápido, preços que disparam, lançamentos sucessivos e uma sensação constante de urgência costumam atrair capital, manchetes e investidores em busca de ganhos extraordinários. No entanto, quando a análise sai do campo emocional e entra no terreno técnico, econômico e urbano, os dados mostram um padrão menos intuitivo: mercados previsíveis, com crescimento incremental e baixa volatilidade, tendem a gerar retornos superiores quando ajustados ao risco.


Esse é o cerne do que chamo de O prêmio da previsibilidade: por que mercados “sem emoção” geram retornos superiores. Não se trata de negar a existência de ganhos em mercados aquecidos, mas de compreender como a previsibilidade atua como um fator estrutural de eficiência para o investidor profissional, especialmente quando métricas como drawdown, liquidez real e tempo de recuperação passam a orientar a tomada de decisão.


Volatilidade de preços, no mercado imobiliário, raramente é um indicador de eficiência. Diferentemente de ativos financeiros líquidos, o imóvel tem fricções relevantes: custo de transação elevado, baixa velocidade de ajuste, dependência regulatória e forte correlação com renda local e dinâmica urbana. Em mercados “quentes”, o aumento rápido de preços costuma antecipar expectativas futuras que nem sempre se confirmam. Quando o ciclo vira, o ajuste é lento, assimétrico e, muitas vezes, doloroso para quem entrou na fase de euforia.


O drawdown imobiliário — entendido aqui como a perda máxima de valor real entre um pico e o fundo do ciclo — é uma métrica pouco explorada, mas crucial. Mercados voláteis apresentam drawdowns mais profundos e prolongados, porque o excesso de oferta, a compressão de renda e a retração de crédito atuam simultaneamente. Já mercados previsíveis, com crescimento consistente de renda, absorção gradual de estoque e estabilidade regulatória, tendem a registrar drawdowns mais rasos e, em muitos casos, apenas uma estagnação nominal seguida de retomada.


A estabilidade regulatória é outro componente central desse prêmio. Ambientes urbanos onde o zoneamento, os coeficientes de aproveitamento, as regras de licenciamento e os instrumentos urbanísticos mudam de forma abrupta introduzem risco não precificado. Incorporadores elevam margens de segurança, investidores exigem retornos maiores e o capital se torna mais oportunista. Em mercados previsíveis, o investidor consegue modelar fluxo de caixa, horizonte de saída e risco jurídico com maior precisão, o que reduz o custo de capital implícito do ativo.


Liquidez, no contexto imobiliário profissional, não é apenas a velocidade de venda em momentos de alta, mas a capacidade de realizar o ativo em diferentes fases do ciclo sem destruição significativa de valor. Mercados “emocionais” costumam ser líquidos no topo e travados na correção. Mercados previsíveis mantêm uma liquidez funcional mesmo em cenários adversos, porque a base de demanda é mais estável, menos dependente de especulação e mais conectada à dinâmica econômica local.


O tempo de recuperação é, talvez, a métrica mais negligenciada e, ao mesmo tempo, uma das mais relevantes. Em mercados voláteis, o intervalo entre o pico e a recuperação real do valor ajustado pela inflação pode ultrapassar uma década. Nesse período, o custo de oportunidade corrói o retorno total, mesmo que o preço nominal eventualmente volte ao patamar anterior. Mercados previsíveis, por outro lado, apresentam ciclos mais curtos e menos traumáticos, permitindo recomposição de valor e reinvestimento em prazos mais eficientes.


Quando se observa o retorno ajustado ao risco, o argumento se fortalece. Crescimentos anuais consistentes, mesmo que modestos, combinados com baixa volatilidade, geram um efeito composto poderoso ao longo do tempo. O investidor profissional entende que o objetivo não é capturar o pico, mas construir um portfólio resiliente, capaz de atravessar ciclos com previsibilidade de renda, preservação de capital e liquidez estratégica.


Do ponto de vista urbano, esses mercados “sem emoção” costumam compartilhar características claras: crescimento demográfico orgânico, diversificação econômica, infraestrutura em evolução contínua e políticas públicas relativamente estáveis. Não há saltos disruptivos, mas há direção. É justamente essa ausência de surpresas que cria um ambiente mais favorável à alocação racional de capital.


Ao longo dos anos, tenho observado que os melhores resultados não vêm dos movimentos mais barulhentos, mas das decisões tomadas com base em dados, contexto urbano e leitura de ciclo. Como corretor de imóveis inscrito no CRECI/PR 28038, atuo de forma consultiva junto a investidores, incorporadores e empresários que buscam exatamente esse tipo de análise: identificar mercados previsíveis, ativos bem posicionados no ciclo e estruturas de investimento que priorizam retorno ajustado ao risco, e não apenas o ganho nominal de curto prazo. Meu trabalho é ajudar o leitor a transformar previsibilidade em estratégia, e estratégia em resultado consistente no mercado imobiliário.

“Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo” (BÍBLIA, Tiago 4:15)

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